
A presença do público surpreendeu organização e a todos os demais presentes, incluindo até o próprio Caco Barcellos, o palestrante da noite. As poucas mais de 500 cadeiras não foram suficientes, pois havia mais pessoas em pé e/ou sentadas pelo chão no pátio do Centro de Convenções.
Não sei se por tratar de um nome global e a abrangência e influência que a TV Globo possui no dia-a-dia dos brasileiros, que motivou tanta gente em plena sexta-feira ficaram atentas às palavras de Barcellos. Miscigenação, pluralidade total... era gente de todo tipo. Aos que classificamos como mais “humildes”, parecia um dever cívico, estar presente por uma questão de ouvir o que o “seu doutô tinha pra falar”. E aos que autoentitulam formadores de opinião, foram surpreendidos por um palestrante sem papas nas línguas e corajoso, com uma visão audaciosa da relação entre bandido e polícia.

E esta linha tênue que Barcellos retratou em seu livro “Abusado” (2004) e a intrínseca convivência no morro Santa Marta no Rio de Janeiro, ninho do Comando Vermelho, foi o tom da palestra. Levantou uma questão que muitos não atentam que é como os moradores das comunidades vivem ao lado do crime, dividindo espaço com traficantes e suas crianças andantes na beira do abismo da marginalidade. Como jornalista reconhece que seus colegas de profissão não “sobem o murro” para noticiar o ângulo de 180° dos conflitos entre polícia e bandidos. Neste aspecto, a linha tênue rompe e confabula toda má sorte e desordem do que é criminoso com farda aparando pelo estado e o marginal como agente social aos que não possui outra assistência [a pública sucateada e corruptela] a não ser da própria cadeia alimentar que são os donos do morro.
O discurso de Barcellos incomodou, afinal de contas, outros pares militares, na ativa ou não, a paisana ou de serviço, estavam lá para ouvir toda esta “cultura da violência” tão comum por aqui em Imperatriz. A experiência amarga com a polícia teve origem na infância, pois cresceu na periferia de Porto Alegre. Em certo momento foi taxista, soma-se aí também a experiência antes da profissão repórter. Com o livro “Rota 66” (1992), que retrata a violência policial em São Paulo, Barcellos teve que morar no exterior para preservar a própria vida. Deste livro falou nas entrelinhas. Mas não deixou de disparar a seguinte frase: “os coronéis são os filósofos das execuções”. Aqui falava sobre os coronéis que inspiram à conduta da Tropa de Elite.
Encerrou a palestra com o vídeo da reportagem [Angola, a Agonia de um Povo] sobre a guerra civil angolana exibida pelo Fantástico em 2001. Explicou que fora convidado pelo exército para mostrar como o povo daquele país sofre com as guerras. Foi no mínimo um convite inusitado, levando em conta a origem e a fonte.
Após a palestra, Barcellos foi gentil em avisar que autografaria e posaria para fotografias. A fila enorme que se formou não adiantou em nada. A confusão e o tumulto foram grandes. Parecia que não se tratava de um jornalista, profissão distante do estrelado mundo dos artistas. Foi incrível o assédio da galera. O camarada bonitão e charmoso, diga-se, foi simpático até demais, então o povo aproveitou. Barcellos nem se dava conta dos livros que assinava, como na foto abaixo, autografou um livro da área jurídica sobre ética profissional.

Para o próximo ano a organização do Salimp tem que levar em consideração os profissionais que atuam na logística de eventos com artistas de renome como Gabriel O Pensador e Caco Barcellos. A falta de experiência e certa teimosia geram vários contratempos. Hoje, além da insuficiência de cadeiras, o serviço de telão foi horrível, com a filmagem exibindo as costas e às vezes a lateral de Barcellos. Para o público foram expostos refletores de luz que além de ofuscar a visão ainda criava sombra no rosto do convidado. Foi mambembe, como bem observou um atento expectador.