Tive mais intimidade com “doutor” Ulisses Braga nos tempos de Júpiter, quando ele já dividia suas idas e vindas entre Imperatriz e Carolina, cidade do qual fixou residência. Eu que sempre fui meio avesso à política, tentava entender o que foi a dita “revolução de Janeiro”. Batíamos longos papos, muitos deles meio confuso e, não esqueço quando comentou de sua decepção que as coisas seguiram após a “revolução” e a política naquele momento. Na época recebi dele o livro Da "Revolta Cidadã" à Utopia Brasil.
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| Foto: Acervo Livaldo Fregona |
Ulisses já era um senhor, o respeito era natural, mas na empresa onde trabalhei, ficou bastante emblemático o seu cabelo branco que às vezes (não sei nem explicar, mas ele chegou a explicar isso também) tinha certo tom cor-de-rosa ou azul, porém bem clarinho. A gente se divertia disso, e certa vez comentei que quando o olhava, tinha vontade de comer algodão doce. Ele se abria na risada, apesar do seu jeitão sério e sisudo.
Ulisses Braga foi um daqueles camaradas sonhadores, que entrava em lutas certas, mas com alguns combatentes errados. É um personagem da nossa história, que vale conhecer sua passagem por aqui.
Abaixo texto publicado no
site Só Cultura (seção Espaço das Letras) mantida pelo escritor Livaldo Fregona, companheiro de Ulisses na Academia de Letras de Imperatriz.
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Depois de sentir-se mal, o confrade Ulisses Braga foi levado a um hospital de Araguaína. Lá, o problema agravou-se e ele acabou falecendo, na UTI, às 18 hora. É o segundo membro fundador que nossa Casa perde no curto prazo de um mês. Ulisses será sepultado amanhã, em Carolina, sua terra natal.
Carolina - MA, dia 30, filho das almas gêmeas Antônio Braga Noleto e Jeny Azevedo Braga, professora, ele comerciante, intelectuais por apego ao vício do ler, escrever e saber, espiritualistas de opção. É divorciado, três filhos; netos, idem. l8 anos, zap! Rio de Janeiro, num cargueiro da FAB, o primário na mala de pau de arara, em busca de “futuro”; Em 1952, apenas 4 anos de Cidade Maravilhosa, dentro da Câmara dos Deputados, como auxiliar legislativo e, em 55, taquígrafo de debates, por concurso público nacional. Só com 32 anos, pôde concluir Direito na famosa Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. Em 60, acompanhando a Câmara dos Deputados para Brasília, onde foi advogado, conselheiro da OAB-DF, seu secretário e vice-presidente. Teve infinitas oportunidades de “poder” (inclusive, muito depois, em Imperatriz). Sem vocação e sequer jeito para ele, nenhum proveito tirou desses contactos.
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| Foto: Acervo Livaldo Fregona |
Depois do “aposento”, voltando às origens tocantinas, em 87 sentou praça em Imperatriz, ela em extraordinário ritmo de progresso, mas também de graves conflitos e contradições. Aí foi advogado, jornalista, radialista e defensor da comunidade, principalmente da ética e da cidadania na vida pública. Escreveu intensamente artigos, crônicas e poesias. 89, o primeiro livro, Neocapitalismo Social - A Revolução Branca Brasileira, sua última fantasia com o capitalismo, mesmo diferenciado pelo social.
Por tais atividades foi convidado para integrar o primeiro grupo de fundadores da Academia Imperatrizense de Letras e, muito depois, para membro do FORUM DA SOCIEDADE CIVIL DE IMPERATRIZ, a primeira sociedade civil rigorosamente cidadã do Maranhão, da qual foi o presidente primeiro, após, como se quisesse afastar um cálice amargo em caminho, procurar obstinadamente alguém para a função... Depois de intensa pregação civilista, foi também aclamado presidente do MOVIMENTO S.O.S IMPERATRIZ, em cuja função assumiu o comando da revolta ética e de cidadania que derrubou um prefeito municipal corrupto, além de interromper um longo ciclo de poder retrógrado e criminoso do grupo a que ele pertencia. Além de depor o prefeito, a insurreição elegeu sumariamente uma “Câmara de Vereadores da Cidadania”, que passou a legislar tal como deveria fazer uma Câmara realmente representativa do povo, fato e fasto jamais visto na história da cidade e do Maranhão.
Ocupou a cadeira do prefeito deposto, durante três dias, com apoio do que de mais expressivo havia na cidade, inclusive da imprensa falada e escrita, e também da O.A.B., Ministério Público e Poder Judiciário, só deixando a cadeira para nela sentar, como de direito, o interventor nomeado pela governadora, a quem entregou, na frente da multidão rebelada, a chave da cidade e uma flor, símbolos da elevação e pureza de intenções da revolta e de seu comandante. Pergunta-se: Por que você saiu de Imperatriz para Carolina e obteve apenas 200 trocadinhos de votos em Imperatriz, em 2002, para deputado estadual?
“Foi o “choque-de-retorno” da máfia derrubada pela revolução que, na primeira oportunidade em que abri a guarda, me durrubou, o que aconteceu quando me aproximei da política convencional. Porém, nem antes, nem depois, fui um político no sentido comum da palavra, mas, sem crítica à função, necessária, nunca tive em mira o poder, mas quem devera ser seu dono, o povo. O que acontece com um homem da cidade que se aventure a penetrar na selva e lá permanecer entre feras? Não deve sair ileso!
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| Foto: Acervo Livaldo Fregona |
Mas tudo o que de aparentemente contraditório aconteceu foi para colocá-lo no lugar onde hoje está. Onde? “Nem sei eu ainda, pois, mal transcorridos três anos desde que tudo começou, ainda me encontro naquela de esfregar os olhos, a ver se o que vejo é realmente verdadeiro! Mas uma coisa eu sei: o meu “adeus às armas”.Agora, é preciso também saber que uma são as cúpulas políticas da cidade, por natureza interesseiras e passageiras; outra, Imperatriz, eterna. Aquelas podem ter-me expulso da cidade, mas Imperatriz sempre teve e tem por mim respeito, gratidão.”
Inspirado nessa vivência, escreveu ainda Carta Urgente, da Revolta Cidadã à Utopia Brasil, sistematizando idéias sobre o que sempre chamou “cidade cidadã”, se posicionando por um socialismo cidadão e reconhecendo o papel reservado ao PT, na época o partido da cidadania, na mudança da sociedade brasileira. Como se vê, nela ainda cometeu um pecado capital: acreditar em homens e partidos “salvadores da pátria”, erro em tempo corrigido diante da crise sem precedentes que o país está carpindo de um ano para cá.. “Depois do fim da divisão de esquerda e direita, só restam de pé duas idéias-força capazes ainda de unir pelo menos a maioria da humanidade: a Cidadania, como emergente poder civil, diante da falência do Poder político e a Ecologia, como defesa do planeta gravemente ameaçado – e exatamente a elas dedicou estes recém-passados anos de sua vida.
Depois de purificação de toda ordem, foi levado a trocar o idealismo humano por uma procura do auto-conhecimento, da alma e de Deus, dizendo-se hoje um cristão-esosterista-livre pensador. Nessa nova fase, acaba de escrever um livro: “CELECINO – Se não estamos sós...” sobre a vida de um iluminado e de uma cidade predestinada, que é Carolina, a cidade natal do autor.