Do portal Do Minuto
Com reportagem de Alda Queiroz
O restaurante a céu aberto não tem letreiro iluminado nem maître que indique a posição adequada para se ocupar uma mesa. A música ambiente não é suave e os serviços oferecidos fogem do padrão self service ou fast food. No “De costas pra rua”, a iguaria é a mesma todo dia: panelada. Galinha caipira e sarapatel são simples coadjuvantes. Em Imperatriz, o prato principal pode ser encontrado em pontos estratégicos. O negócio é praticamente uma franquia.
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As imagens foram capturadas em janeiro deste ano.
(Foto: Vanusa Babaçu) |
Pensando em retratar a panelada na cidade, os estudantes de Comunicação Social, Clarícia Dallo e Fernando Ralfer, produziram um vídeo documentário. O filme, que tem 17 minutos, é o produto final do trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, na Universidade Federal do Maranhão. A apresentação da monografia e a primeira exibição fílmica aconteceram nesta sexta-feira (01), na UFMA.
Do preparo ao consumo, as imagens partem da ação de três personagens. O olhar do vídeo busca interpretar a realidade destas mulheres por meio das experiências reveladas por cada uma delas. O que se observa é que estas anônimas personificam a realidade de todas as pessoas que vendem panelada.
As vozes são variadas mas as histórias se confundem. Cícera Lopes há 20 anos vende panelada na Feira do Mercadinho. Francisca Lopes há 20 anos empilha as panelas no setor Quatro Bocas. Maria Lopes desfila com o carrinho de comida nas primeiras horas da manhã. As três histórias, destas três mulheres, que são irmãs, costuram a narrativa.
Arte de registrar - “Quando alguém chega perguntando o que é panelada já sei que não é daqui”, brinca uma das irmãs. Com a pesquisa em mãos, Fernando e Clarícia desenvolvem um roteiro que ganha forma nas telas. O ineditismo da realização de vídeo em trabalhos de conclusão de curso e a abordagem do tema propõem uma reflexão sobre a produção local. De acordo com Clarícia, o filme também representa a realidade pertencente a este povo, exaltando as vivências da comunidade. “Quisemos destacar a panelada como patrimônio cultural, humanizando as paneleiras e mostrando a relação do prato com os consumidores”, acrescenta.
Arte de colorir - “Panelada sem corante não é panelada”, salienta a cozinheira que faz o prato para amigos, Didi Praes. O vermelho do condimento brinca com o verde do pimentão, o amarelado do bucho do boi e a toalha de mesa estampada. A fotografia define a estética do filme. Em dias nublados ou de sol, o cuidado com a iluminação dá uniformidade ao vídeo. No vídeo, o modo de preparo do prato desperta no espectador a vontade de procurar a banquinha de comida mais próxima. O passo a passo da receita funciona como uma faixa bônus.
Arte de saborear – “Não tem coisa melhor pra curar uma ressaca”, confessa um cliente. O cozido com os miúdos de boi recebe o acompanhamento de arroz. Farinha, pimenta e limão são opcionais. O gosto pelo ofício se manifesta no sabor da comida. Ao revelar as dificuldades destas paneleiras, não há um apelo para a precariedade do local de trabalho e as condições de vida. A imagem exalta o suor da lida, afastando o dissabor do dia a dia. “Gosto de fazer, vender e trabalhar”, enfatiza Maria da Paz.
O documentário possibilita a compreensão de um tema relevante para cidade. Segundo o historiador Adalberto Franklin, esta comida é uma tradição da cultura sertaneja. Ele explica que para o mercado informal, a venda de panelada ocupa uma cadeia produtiva com mais de duas mil pessoas. “Panelada é orgulho da cidade. Comida típica, cultural e de bom gosto”, reforça.
Na fronteira entre o real e o ficcional, o vídeo mergulha no imaginário coletivo explicando o contexto de Imperatriz. A Feira do Mercadinho e o setor das Quatro Bocas servem como pano de fundo. A escolha dos cenários e o deslocamento entre um ponto e outro sugerem a ideia de aproximação entre quem faz, quem vende, quem vê e quem tem preconceito com a panelada. A utilização da trilha musical também se dá de forma muito significativa. Na abertura, “Chora alma minha”, sucesso do Stênio, o cantor que arrasta multidões. Por fim, a alegria dos carnavais na marchinha “Panelada”, ao som de Zeca Tocantins. O filme “De costas pra rua” estabelece uma interação entre os espaços, ações e histórias.