O camarada e jornalista Marcos Franco publicou em seu blog um comentário bastante sóbrio e desconcertante a cerca do lamentável episódio envolvendo uma equipe da TV Mirante local e moradores de rua na Av. Beira-Rio.
Oportunas observações que grosso modo vai de encontro ao pensamento maquinário de alguns profissionais da imprensa, ainda que estes não se definam como agentes de informação e/ou meio, diariamente os devaneios e a fragilidade da atuação esbarra no mercantilismo da desgraça alheia às vistas da bajulação política e rasteira.
Vejamos:
"Hoje pela manhã, como sempre faço, estava tomando meu café assistindo ao noticiário. Eis que o telejornal local mostra uma matéria de uma agressão sofrida por sua equipe de reportagem na beira-rio. Na matéria, aparece a imagem de um homem segurando uma mulher, tentando contê-la. O repórter diz que era uma briga e, supostamente achando que era um grande furo, foi se meter na história. Não se consegue ouvir, mas a mulher – visivelmente alterada – deixa claro que não quer ser entrevistada. Ora, é um direito seu e pelo que se mostra ela não aparenta estar cometendo nenhum crime, nem colocando a sociedade em risco. Mas o repórter insiste e a mulher toma o microfone e agride o repórter.
Bom, nada justifica a agressão da mulher contra o repórter. Ainda que pudesse estar drogada, como insinua a matéria. O correto seria então o agredido chamar a PM e registrar a ocorrência na delegacia. Mas a questão não é exatamente essa.
O grande erro de nós jornalistas é nos acharmos com mais direitos que os outros. Um microfone, um gravador ou uma câmera não nos dá alvará para fazermos o que quisermos. Houve uma briga, o repórter quis cobrir, mas a mulher não queria ser entrevistada ou filmada. É exatamente o que acontece todos os dias nos programas policiais: a exposição de quem não foi julgado e, portanto, não pode ser considerado criminoso. A matéria poderia até ser feita sem precisar desses recursos. Mas a questão também ainda não é exatamente essa.
Logo ao chegar ao trabalho e checar os emails e redes sociais, já havia uma nota de repúdio da Associação de Imprensa da Região Tocantina (Airt). Li, mas quase não acreditei no que meus olhos viam. Logo na terceira linha está escrito sobre os moradores de rua: “eles contaminam a cidade”. Uma entidade de classe, de jornalistas, acha que os moradores de rua “contaminam” uma cidade. Vamos em frente e vejamos outro trecho: “Em meio à tanta desordem e desrespeito junto a sociedade, é que A Associação de Imprensa da Região Tocantina – AIRT, se posiciona repudiando o ato e pede atitude das autoridades que garantam a liberdade de Imprensa” (sic). Que “tanta desordem” é essa? Uma briga de moradores de rua? E em que momento a liberdade de imprensa foi ameaçada? No meu entendimento, não passa de preconceito. Os moradores de rua, por diversos motivos, estão em situação de fragilidade social. Não contaminam ninguém. A nota acerta em alertar o Estado – aqui no caso a prefeitura – e cobrar auxílio a essas pessoas.
Mas meu espanto não pára por aí. Um colega jornalista comentou a nota numa rede social, apoiando o repúdio. Até aí tudo bem, tudo normal. Seria. Veja o que disse o coleguinha: “ Nos lugares onde se assentam essas pessoas, nem capim nasce mais…”. Mais uma clara demonstração de preconceito, de despreparo para lidar com os problemas sociais. O comentário engrossa o coro dos que vêem nossos pobres e desamparados como doenças.
Nós, jornalistas, temos que aprender que o tal quarto poder é um mito, uma inverdade, uma ilusão arrogante. O mundo, as pessoas, não estão aos nossos pés, nem sob nosso julgamento. Nós devemos nos colocar em nossos lugares. Nosso trabalho é levar a informação à sociedade e não interferir nela".
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3 comentários:
A você meu caro colega Marcos Franco, posso me dirigir como colega de profissão. Você tem o princípio da ética que norteia o nosso trabalho. No mais, tenho vergonha de dizer que sou jornalista que mora em Imperatriz, onde a classe nunca poderá se equiparar a estes moradores de rua que são muito mais éticos em suas ações.
O tema abordado neste post do jornalista Marcos Franco é a minha tese da monografia que estarei apresentando no meio do ano como parte da conclusão do curso de Direito.
Há uma confusão imensa entre o direito e a liberdade de expressão. Especialmente quando o assunto é polícia.
Todos tem o direito de não querer sua exibição publica na televisão.E nós como imprensa devemos respeitar. Isso não pode ser chamado de censura ou impedimento da imprensa.
O reporter pode até mostrar imagens feitas em ruas, afinal é publico, contudo forçar entrevista ou mesmo exploração do assunto ou das pessoas, ultrapassar a liberdade e o direito de quem está sendo acusado ou envolvido.
Tenho dito que a mesma Constituição Federal que garante a liberdade de imprensa é a mesma que garante a proteção da imagem e da honra das pessoas, mas, infelizmente, os colegas jornalistas só descobrem isso quando espreitados numa demanda judicial, momento em que apelam, sem fundamento, para o velho clichê: "isso censura".
Ademais, observo ainda, que há, de fato, entre aqueles que lidam com a comunicação, jornalistas ou não, a ideia segundo a qual são mesmo seres superiores e que, nessa condição, podem tudo, inclusive o patrocínio de infâmias, as vezes abordo de palavreado chulo e ofensivo, alguns até impublicáveis.
Quanto ao fato específico, tratado na matéria da Mirante, ali não seria o caso nem de chamar a PM, nem de divulgar a suposta agressão e nem tampouco publicar uma "nota" da cartorial Airt.
Por outro lado, não tenho vergonha de ser jornalista, integrante da imprensa de Imperatriz porque a maioria dos colegas é formada por gente séria e honrada e, também, porque a comunidade, consciente que é, sabe, direitinho, quem é quem nesse tabuleiro...
Daniel Souza é jornalista e advogado
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Juízo meu povo, juízo...